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Notícias : Do canteiro original para as ecovilas
Enviado por luismiracco em 28/07/2009 13:37:41 (968 leituras)

O Curso Educação Gaia – Design em Sustentabilidade concluiu neste mês a sua primeira edição no Sul do Brasil, aproximando os alunos de uma experiência de interação social sem perda de vínculo espiritual e com as tradições de um dos povos guardiões da biodiversidade da Terra. Junto de Chico Mendes, Ailton Krenak, uniu os trabalhadores extrativistas com os povos indígenas através da Aliança dos Povos da Floresta. Com a estratégia dos “Empates”, eles impediram a ocupação da Amazônia por empresas agropecuárias e projetos de colonização financiados pelos governos. Aos 56 anos, o coordenador da União das Nações Indígenas, fala a seguir, como é possível vivenciar uma visão de mundo integral.

Eliege Fante - Que exemplos os povos indígenas podem nos dar ao design de ecovilas, além do diferente padrão de consumo?

Ailton Krenak - Além da diferença do padrão de consumo, através da nossa atitude de reverência quando vamos colher um fruto ou uma semente, de pedir para aquela planta o direito de receber o benefício, a energia vital e criativa, e nunca tirar mais do que precisamos, creio que poderíamos fazer uma experiência de verificar como é viver com o outro. Nós sentimos que os brancos estão muito individualistas, além de terem este problema grave de consumir as coisas, parece que este consumo é uma consequência de uma escolha anterior, a de ser individual. Ele não consome muito por uma razão qualquer, mas sim porque ficou sozinho. Se tivesse ficado junto com todos os seus parentes, os bens que estariam disponíveis seriam distribuídos imediatamente entre tantas pessoas que, por exemplo, não seria preciso ter uma geladeira para guardar comida. Você pescou, todo mundo come; colheu milho, faz uma festa e todo mundo come o milho. Então, você fica dentro do ciclo da natureza e isso vai gerando uma confiança de que não é preciso armazenar. Mesmo que você esteja comendo a última refeição do dia, sabe que amanhã terá outra. Talvez não seja tão abundante quanto foi na festa. Mas vai ter porque a natureza já te deu esta confiança. Mesmo que você não tenha muito agasalho, tem muita gente próxima. Em algumas casas de nossas famílias, às vezes, dormimos todos no mesmo ambiente. Criamos proximidade, um sentido de proteção uns com os outros. Infelizmente, quando os brancos chegaram, principalmente através de suas religiões, chamaram isto de promiscuidade. Então, de acordo com eles, pelo bem da saúde pública e do saneamento, começaram a construir habitações individuais para nós.

EF - Porque você acha que surgiu o individualismo e como fazer este resgate cultural?

AK – Tenho a impressão de que foi no momento em que começaram acumular riqueza e decidiram que não queriam mais compartilhar. Daí passaram a viver de uma maneira mais egoísta, separados uns dos outros. E isto foi se radicalizando, tanto que, pode ver, quanto mais rica é a pessoa, mais isolada ela é, inclusive do próprio contexto social. Acredito que para buscar esta reconexão com a terra, seria preciso se aliar às famílias que nunca abandonaram este vínculo, abraçar estas comunidades que viveram os últimos dois ou três mil anos neste lugar; não no plano das idéias, dos conceitos, mas na realidade. Ver como esta gente que ainda tem este vínculo umbilical com a natureza faz. Em tempos de escassez de recursos naturais, o resultado desta convivência será outras descobertas. Ao juntar as expectativas de uma experiência exaustiva dos séculos XX e XXI com gente que ainda está muito serena e muito tranqüila, o resultado vai ser uma terceira coisa muito mais bacana e mais criativa.

EF – A exemplo da ação dos Povos da Floresta da Amazônia, como você acha que aqui nós podemos lidar com aqueles que tentam impor os seus interesses às comunidades originais e locais?

AK –. Creio que através da nossa ação para consolidar aquelas comunidades verdadeiras, que vivem nestes territórios que têm uma imensa biodiversidade e uma grande importância para o planeta. E depois, com a força desta experiência, reproduzir estas práticas em ecovilas. Tem comunidades aqui em volta de vocês, como as com demandas de indígenas para reconhecimento de terras que são sagradas para eles, que representam a religação deles com sua força espiritual. Então, creio que devemos apoiar eles de verdade nisso, mostrando à opinião pública, ao governo e às instituições que é legítimo respeitar os direitos destes povos. Esta atitude seria o mesmo que ampliar uma experiência a partir de um canteiro de sementes originais.

Mais informações:
http://www.redepovosdafloresta.org.br/

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